confesso uma das minhas paixões
Os bagos do tamanho de grãos de chumbo vão crescendo pelo Maio fora, tornam-se maiores pelo Julho adiante e depois, ao calor de Agosto e Setembro amadurecem.
TOURIGA - bagos túmidos de sangue
D. BRANCA - bagos unidos e redondos, verde-claro de esmeralda
DIAGALVES- tem bagos de cristal e o mês de Agosto, aquece-lhe a folhagem pontiaguda dum claro dourado que encanta.
RABISGATO- de cepa valorosa, vara larga e comprida, dá vinho de valentia e tem os bagos de verde-claro de certos licores.
MALVASIA - cor-de-rosa, trazido do levante, é toda a cor-de-rosa viva, como a romã aberta e guarda misteriosamente o aroma e os sonhos orientais.
VERDELHO- de folha cordiforme, é amarelo esverdeado como as lagunas ensombradas.
BASTARDO - de bagos fechados e tão unidos que torna o cacho cilíndrico, cor de abrunho, de pele translúcida, doce e de aroma tão penetrante que incomoda.
MOURISCO - o bago mais perfeito de todos, de pedúnculos de púrpura, cacho escadeado e solto para os bagos ficarem livres, vertendo sangue serraceno. Perfurou-o a última moira que pisou a nossa terra.
NEVOEIRA - a folha mais rúbia de todo o Outono, bagos unidos, cachos aos montes, cobertos de farinha, o que leva muitos a chamar à qualidade, padeira.
DANZELINHO - de folha terminada em coração.
DEDO DE DAMA - bago galante, como lindas falanges de princesa, pele fria e carne transparente.
UVA SALSA -a folha recortada de todo o Douro.
TINTA AMARELA - tão doce e linda, de cor e aroma tão vivos que as abelhas a procuram e a sorvem.
ALICANTE - de bago enorme , oblongo, cor de coral.
CHANCELER - cor de ouro desmaiado, temporão e suave.
TINTA CÃO - vinho austero, bago preto lavado de azul.
SOUSÃO- que tinge e pinta tudo da sua tinta de escrever escura, inesgotável, um nunca acabar.
PINA DE MORAIS, 1942
pretende ser um amiguinho da sua criadora e também um pequeno cabide de simplicidades quotidianas
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
LASSE SODERBERG
A ERVA DE MANÁGUA
I
Um rebanho de ruínas pastando
em metade da cidade, pareceu-me.
A erva crescia ali como o cabelo dos mortos.
Tinha a sua história a contar.
Sentei-me a escutar
como se pela primeira vez.
Aproximaram-se crianças com as mãos vazias,
privadas dos seus pais, escuros.
Pareciam a erva queimada
sob a qual cresce a nova.
Ali havia também homens e mulheres,
silenciosos, sérios como raízes.
E todos escutavam, pareceu-me,
como se pela primeira vez.
II
O lugar em que me encontrava
era o intervalo coberto de erva,
o ponto entre duas épocas,
ambas existentes,
uma sem começo real,
outra sem fim real
e do mesmo modo me encontrava eu
no meu próprio ponto de ruptura
em que estava dividido em duas partes,
as duas como estranhas uma da outra
e no entanto vivas no mesmo alento.
Mas aqui, entre o nascido e o por nascer
era um testemunho incerto,
eu mesmo erva entre as ruínas.
III
O que nada é, será.
O que nada foi, é.
Sussurros, rabiscados com pressa
na erva, regressaram à sua penumbra
Por toda a parte havia seixos
como excrementos deixados pelas ruínas,
que lentamente se iam distanciando,
pareceu-me, enquanto os homens,
as mulheres, as crianças permaneciam
sem mover-se, inflexíveis
como a grade do silêncio
armados de doçura.
A cinza que vi nas suas mãos
era o princípio do país.
Slottet la Coste ligger i ruiner, 1990
retirado do blogue do Amadeu Baptista
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
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